JESUS FOI DESATENTO NO DISCIPULADO DE JUDAS?

 

Se Jesus não fosse Jesus - Deus encarnado - Autor e Consumador da fé, com certeza seria usado como exemplo de "falha de discipulado" pela turma que profissionalizou e racionalizou o relacionamento do Mestre com seus discípulos.

 

Veja: Judas não era esquizofrênico, nem era um inimigo de Jesus infiltrado no meio dos discípulos. Era um discípulo verdadeiro, como todos os outros, chamado por Jesus.

 

Em que momento deu início no coração de Judas a doença ou a contaminação que o levou a trair seu Mestre? Com certeza não foi em um momento, de repente.

 

Judas experimentou todo um processo de desgosto íntimo, velado. Aos poucos, seu coração foi sendo tomado por uma revolta, uma insatisfação, uma discordância crônica, uma rebeldia submissa...

 

Um processo sutil e oculto, mas que com certeza se manifestava por meio de feições, reações, olhares, comentários, silêncios...

 

Repare: Você não vê Judas agindo como Pedro agiu, por exemplo. Pedro repreendeu a Jesus certa vez, e ouviu de Jesus: "Pra trás de mim, Satanás (Adversário,Opositor), pois tu não cogitas das coisas de Deus, mas das coisas dos homens!"

 

Pedro foi chamado de "Satanás", mas era Judas que estava com o bicho encostado no corpo!

 

A pergunta que se faz é básica: Porque Jesus não repreendeu a Judas também?

 

Ou: Porque Jesus não chamou Judas pra dar uma volta, pra comerem alguma coisa juntos e então desfazer num bom papo íntimo o processo de mágoa-traitiva que estava se espalhando por todo o coração de Judas?

 

Pra entendermos isso temos que saber algumas coisas:

 

1 - Jesus não tinha motivação ou iniciativa quase nenhuma para lidar com hipóteses, coisas ocultas, impressões ou coisas que parecem ser. Ele lidava com verdade, realidade, simplicidade. O fato de ter repreendido a Pedro se deu porque Pedro, de maneira objetiva e simples, ofereceu algo objetivo e palpável para que Jesus desse uma resposta também objetiva. As reações e respostas de Jesus sempre eram abundantes e manifestavam uma entrega abundante de seu ser quando pessoas simples diziam ou manifestavam simplicidade. E essas reações e respostas tanto podiam ser louvores ou repreensões - sempre motivado pelo amor.  Judas jamais ofereceu isso a Jesus. O processo dele era oculto, incubado. E Jesus, mesmo sendo Deus, não era motivado a julgar quem quer que fosse. Ele lidava com frutos, manifestações. Tanto frutos de justiça, como frutos de injustiça. Judas, até a última hora não apresentou nenhum desse frutos. Como disse, o processo dele era outro.

 

2 - Assim como o diabo entrou no coração de Judas, também tentou entrar no coração de Pedro. Certa vez, Jesus confessa a Pedro algo interessante:

"Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!
32 Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos".

Jesus não se preocupava em "preservar" a si mesmo ou ao seu "Ministério". Jesus não tinha territórios marcados a defender. Ele tinha vidas, e era com vidas e corações que Ele se preocupava. A forma de Jesus combater a "sedução", a "ciranda" ou a "peneiragem" de Satanás na vida de seus amigos, era intercedendo diante de Deus para que Deus provesse livramento, jamais vendo a coisa no nível pessoal, onde seria tentado a ver candidatos a opositores de seu "ministério".

E note que, a "intercessão" de Jesus não era a "intercessão profissional" que nós temos hoje. A intercessão de Jesus era um coração aberto diante de Deus, desejando o bem daqueles que ele amava. Só isso. E tudo isso!

Agora repare no detalhe da palavra de Jesus a Pedro: "Quando te converteres, fortalece OS TEUS IRMÃOS". A que irmãos Jesus se referia? Se Jesus intercedeu por Pedro, não teria intercedido também por Judas? Claro que sim! Mas Jesus não disse isso a Judas, como disse a Pedro. Porque? Por um simples fato: As "cirandas" e tentações dos dois eram iguais, mas os corações estavam diferentes. Se Jesus tivesse dito isso a Judas, essa palavra poderia suscitar no coração de Judas uma revolta ainda maior! E talvez Jesus até mesmo corresse o risco de ser entregue antes da hora...

 

3 - Jesus não se deixa manipular por situações que normalmente pessoas "religiosas" e socialmente reputáveis se deixam reger. Para entender isso, basta ver a resposta dele à sua mãe quando estavam em uma festa de casamento e o vinho acabou. Sua mãe logo veio com "a missão" definida, jogando pra cima de Jesus a responsabilidade de "fazer alguma coisa". "O vinho acabou", foram as palavras dela. Ao que Jesus responde: "Mulher, que tenho eu contigo. Ainda não chegou a minha hora!"

Que "homem de Deus" que se preze teria falado dessa forma? Parece um garoto novo e imaturo falando, diriam os religiosos. Em outra ocasião, Jesus estava pregando. Quando de repente, alguém "muito bem intencionado" interrompe a fala dele para dizer "muito bem intencionadamente": "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora. Não vai lá recebê-los ou mandá-los entrar e sentar perto de ti?" Ao que Jesus responde: "Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, esse é minha mãe, meu irmão e minha irmã". Em outra ocasião ainda, Jesus estava falando a respeito do Reino de Deus, quando alguém grita do meio da multidão: "Bem-aventurada aquela que os seios te amamentaram!" Ao que Jesus responde de "bate-pronto" na mesma altura de voz: "Sim! Mas muito mais bem-aventurados são aqueles que fazem a vontade de meu pai!" Também, no meio de um discurso de Jesus, um outro "bem- intencionado grita de repente, movido por sentimentos obscuros: "Senhor, tu estás falando bonito, mas manda que meu irmão reparta comigo a herança!", como quem diz : "Estás falando muito bonito, mas vamos começar a trabalhar e realizar coisas práticas por aqui! Manda meu irmão dar a minha parte da herança, e faça justiça pra valer Jesus!" Ao que Jesus responde naturalmente: "Quem me constituiu juiz ou partidor entre vós?"

Não sabemos qual era a intensidade e o tamanho da carência e revolta de Judas. Mas, o que vemos é que Jesus não se deixa manipular por silêncios, expressões dúbias, afastamentos dissimulados, "gelinhos passionais", e etc. Se fosse manipulado por essas coisas, há muito tempo teria chamado Judas para conversar e desferiria a tradicional frase: "Está acontecendo alguma coisa? Eu sei que está. Vamos conversar? Conta pra mim, e vamos chegar a um acordo..." Jesus pulou essa etapa conscientemente. Não foi relapso, não foi desatento a Judas, nem o amou menos do que a todos os outros discípulos. Apenas lidou com a situação da forma como ela precisava ser lidada. Tudo que Jesus fizesse além do que fez, seria injusto e sem sabedoria. E ele - Jesus - se submeteria à um tipo de prisão que nunca se permitiria estar. Jesus não tinha nenhum problema de se submeter aos soldados de Roma e à cruz. Mas jamais se permitiria escravizar por manipulações ou por aquilo que os homens poderiam esperar dele em suas vaidades e caprichos mesquinhos. Vide todos os exemplos que citei acima. Se ele se permitisse reger pelas expectativas dos homens em relação à Ele, não teria sido o nosso salvador. Seria mais um cativo do pecado.

 

4 - Jesus não chamou Judas para um "papo discipulador" como diriam os religiosos de hoje. Portanto, colheu as conseqüências de sua decisão sábia: o tempo se passou e ele foi entregue por aquele que não teve seus "cuidados psicológico-profissionais discípulo-religiosos", conforme muitas "visões" de hoje em dia. Foi entregue aos romanos com um beijo no rosto.

 

O tipo de doença que Judas carregava é peculiar. Até a última hora ele não oferece a Jesus oportunidade para o curar daquele encosto! Até a última hora ele se apresenta dissimulando, se escondendo, mascarando sua revolta! Até a última hora ele carrega aquela capa psicológica que declara: "Eu o amo! Queria serví-lo bem. Mas Ele não me dá condições para isso, por isso eu sofro e Ele sofre junto comigo... Na verdade, eu sou apaixonado por Ele, mas acho que Ele não me ama como eu o amo...Sempre me decepciona... Eu pensei que Ele seria o líder que eu esperava que fosse, libertando Israel dos Romanos e sendo o nosso Rei... mas Ele me desencantou...Eu estava tão disposto a trabalhar pra ele... Estava mesmo comprometido com o ministério dele... mas ele não sabe tratar comigo... E nem me procurou pra conversar vendo que eu estava estranho, cabisbaixo, esquisito, sem naturalidade, com reações que sinalizavam o meu desgosto... Por isso... eu o traio sim, mas o traio amando! Com um beijo..eu na verdade o amo..."

 

E assim pensando, Judas se entrega de uma vez por todas nos braços de Satanás, que foi quem encheu o coração dele dessas formulações psicológicas.

 

E o mais interessante de tudo isso é a postura de Jesus!!!

 

Ao ver Judas se aproximar, Jesus diz: "Amigo, a que vieste?"

 

Jesus era dissimulado? Hipócrita? Cínico?

 

Não desconfiava que Judas já não "ia com a cara dele" fazia tempo???

 

Como o chama de amigo? Queria irritá-lo mais ainda?

 

Claro que não.

 

Jesus era amor, e o amor é livre e benigno.

 

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera de bom, tudo suporta.

 

É difícil lidar com o amor livre de Deus quando estamos presos às nossas vaidades, manipulações, caprichos e falsos amores.

 

Na verdade, Jesus era mestre. Mas não como os mestres do mundo.

 

Ele ensinava andando, vivendo, caminhando, amando.

 

Em verdade, em verdade.

 

Nunca em apostila, apostila.

 

Nunca em gabinete, em gabinete.

 

Nunca em palestra, em palestra.

 

Nunca conforme aquilo que se espera de um "bom discipulador" ou um "bom mestre".

 

O Espírito desse discipulado de Jesus é o Espírito que deve reinar no meio da Igreja.

 

No meio da "igreja" Ele verdadeiramente reina, sempre reinou e reinará.

 

Mas no meio da instituição religiosa, ele nunca terá lugar pra ser e acontecer.

 

Porque religião segue conceitos, ansiedades de homens.

 

Religião procura tudo o que os gentios pagãos procuram.

 

E acha o Reino de Deus algo estranho e confuso. Assim como Judas via em Jesus um mestre estranho e confuso.

 

Enquanto os discípulos de Jesus buscam esse Reino de Deus incomparável, não se preocupando com o que hão de comer, vestir, beber, morar ou ter..

 

A religião dá ênfase a tudo o que Jesus disse que não fosse motivo para que andemos ansiosos e não fosse alvo de nossa busca.

 

Por isso levantam ministérios dizendo: Venham! Venham comer! Venham vestir! Venham conquistar! Venham construir celeiros! Venham!

 

Igreja pagã, gentia. igreja que não é Igreja, pois a Igreja vai por outros caminhos, sem nuca deixar de ser acrescentada das "demais coisas". Mas ela busca em primeiro lugar o Reino de Deus e sua Justiça, em Jesus.

 

Mas para a Religião tudo isso é confuso, pois para a religião, "Reino de Deus" é sinônimo de "Celeiro abarrotado", boas roupas, conquistas capitalistas e riqueza terrena.

 

Então eles dizem: Estamos buscando "o Reino" e temos experimentado "resultados"!

 

Ora, ora. Resultados! Bah!

 

Muita gente no mundo tem experimentado "resultados" por conta da determinação, foco conquistador, motivação intensa, carreiras piramidais e etc.

 

"O Reino de Deus não vem com visível aparência! Ele está dentro de vós", disse Jesus.

 

"Quando aparecerem gentes e gentes dizendo: Ei-lo aqui! Está ali! Está acontecendo!, não vades nem os sigais, pois haverá dias em que desejareis ver a promessa do Filho do Homem e não vereis com olhos carnais. Nesse tempo, muitos aparecerão anunciando a manifestação do meu Reino, em meu nome. Mas não vades! Nem os sigais! Pois o Reino de Deus não vem com visível aparência. Mas está dentro de vós".

 

Por isso Judas traiu a Jesus.

 

E por isso Jesus não pôde fazer mais por Judas.

 

Porque o Reino, o Mestre, O Jesus que Judas esperava era outro.

 

E não existe outro, apenas um.

 

E esse um é aquele que se manifestou em carne, e que é descrito pelos que testemunharam suas palavras e vida. João diz: "Vimos a sua glória. Glória como do Unigênito do Pai".

 

Mas Judas não viu essa glória, mesmo tendo andado junto com Ele, como João.

 

Para Judas vale a palavra de Paulo aos Romanos:

 

"como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e aquele que nela crê não será confundido.
1 ¶ Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos.
2 Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento.
3 Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus".

 

 

Eis a razão pela qual Judas caiu.

 

Tropeçou na "Pedra de tropeço".

 

Você está lendo certo. Não se escandalize.

 

Graças a Deus que não fui eu quem escreveu essas palavras. Mas gostaria muito de ter escrito.

 

Jesus é a Pedra de tropeço colocada por Deus. Rocha de escândalo.

 

Quem crer no escândalo não será confundido nunca e não tropeçará.

 

Quem não crer no escândalo ficará confuso eternamente, eternamente tropeçando.

 

Confuso, desgostoso, traindo a Jesus e tentando beijá-lo.

 

Que sina, hein?

 

 

Em Cristo, destinado a ser alvo de contradição, para ruína ou para levantamento de muitos, dependendo da capacidade individual de aceitar o escândalo de Deus.

 

 

Marcello