TEXTOS DIVERSOS
| A TRAIÇÃO DE PEDRO: MORTE QUE NOS VIVIFICA |
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"E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai.
30 E, tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.
31 Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas.
32 Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia.
33 Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim.
34 Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.
35 Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo".
A traição de Pedro é incompreendida por muitos. E assim perde-se um grande entendimento que poderia tocar-nos em nossa relação com o Evangelho e com Jesus.
Já vi gente dizendo que Pedro traiu porque não foi capaz de lutar pelo Mestre e ser preso com ele.
Já vi gente dizendo que Pedro traiu porque se envergonhou de confessar que era discípulo de Jesus...
Mas Pedro foi capaz de defender a Jesus e deixado por sua conta iria lutar até a morte, chamando seus amigos e fazendo uma revolução para proteger o Mestre! Como ele poderia ser visto como covarde?
Foi a atitude de Jesus pegando a orelha cortada no chão e colando-a no lugar, que chocou, contrariou e entristeceu ao Pedro amante e valente.
Não era "medo" a essência da traição de Pedro.
Como uma pessoa, cheia de medo de ser presa, é capaz de caminhar pra boca da toca do leão? Pedro foi perambular na frente de onde estavam julgando a Jesus! Se ele fosse um medroso ele estaria o mais longe possível dali.
Portanto, definitivamente o problema de Pedro não tinha a ver com covardia.
E se o problema dele não tinha a ver com covardia, uma vez que ele estava mesmo disposto a lutar até a morte como cabra-macho valente, porque alguém pensaria que a "negação" de Pedro tinha a ver ainda com alguma covardia?
"Então, uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo:
68 Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!
69 Ora, estava Pedro assentado fora no pátio; e, aproximando-se uma criada, lhe disse: Também tu estavas com Jesus, o galileu.
70 Ele, porém, o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.
71 E, saindo para o alpendre, foi ele visto por outra criada, a qual disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno.
72 E ele negou outra vez, com juramento: Não conheço tal homem.
73 Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia.
74 Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo.
75 Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente".
A verdade que muita gente não entende é a seguinte:
A negação de Pedro era fruto de uma indisposição de alma contra Jesus, ou seja, Pedro havia se escandalizado daquele que até então era seu mestre.
Digo "até então", porque Pedro decidiu em algum momento no meio daquela prisão de Jesus, que aquele Cristo não mais seria seu mestre.
Talvez por ver Jesus se entregar tão fácil...
Talvez por tê-lo mandado guardar a espada e ter curado a orelha cortada...
Talvez por tê-lo desconfirmado na frente de amigos e inimigos...
Talvez por não entender a demora de Jesus em tomar logo o trono de Jerusalém. Afinal de contas, porque eles estavam na capital judaica, se não fosse para fazer a grande revolução e ver Jesus assentar-se no trono de Davi?
Talvez porque muitos e muitos dilemas inconfessáveis e muitas queixas ocultas no coração de Pedro, vieram a tona naquele momento crucial. E Pedro viu a última gota transbordar seu cálice de revolta contra o mestre que ele havia insistido tanto em afirmar e crêr como seu mestre...
Digo "talvez" apenas porque só Pedro e Jesus sabiam exatamente o que estava ocorrendo ali.
No Evangelho, somente há pistas do que ocorria. Pistas como por exemplo a declaração de Jesus a Pedro:
"Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio,
30 para que comais e bebais à minha mesa no meu reino; e vos assentareis em tronos para julgar as doze tribos de Israel.
31 Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!
32 Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.
33 Ele, porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte.
34 Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante".
"Tu negarás que me conheces".
Essa era a essência da traição. Não foi um fraquejo de Pedro, e sim um disposição de coração contra Jesus, até então seu Mestre...
"Quem é esse cara?"
"Desisto. Eu não o entendo. É muito estranho!"
"Eu bem que tentei. Mas ele é lento e burro! Porque não aproveitou as Hosanas! do povo e tomou logo o poder?"
"Curou a orelha do próprio inimigo! O que ele quer? Me envergonhar? Me humilhar na frente de amigos e adversários? Esse cara me odeia? Será que Jesus tem alguma coisa contra mim? Até hoje não digeri aquela vez em que ele me chamou de Satanás! Tá aqui, engasgado na minha garganta...".
"Qual é o sentido disto tudo? A gente caminha com ele três anos, deixamos pra trás família, profissão, tudo! Pra acabar assim completamente sem nexo algum?"
Acho que colocadas as coisas desta forma, fica fácil perceber o que havia no coração de Pedro.
"Trair a Jesus" não é fraquejar, não é ter medo, não é tomar um trago pra aguentar a barra, não é qualquer coisa que seja uma fragilidade da carne ou da alma!
"Trair a Jesus" é negá-lo, é se escandalizar dele, é ter vergonha de ser associado a um cara estranho, bocó, com mania "do contra", ingrato...
Trair a Jesus é descobrirmos que nós nos traímos durante todo o percurso, pois dizíamos que críamos em um tal Mestre que era uma projeção da nossa mente!
E essa descoberta é tão verdadeira, tão verdadeira... que o próprio Jesus confessa antecipadamente que é esperado que os homens se decepcionem com ele e ele nada pode fazer em relação a isto.
Portanto, é a confissão de um incapaz e incompetente! - Pensam os "Pedros" no calor da situação.
Mas esta "nobre confissão" em nada consola o coração de um cara intenso, fiel, valente, disposto, macho e discípulo que deixou toda sua vida pra trás, a fim de se dedicar a uma farsa! Perdeu três anos de sua vida dedicados integralmente a um louco!
Como diriam aqueles revoltados menininhos de You Tube: "Quê esse idiota pensa? Quero meus três anos, um mês, duas semanas, três horas, vinte minutos e quarenta e cinco segundo de volta!"
E então, Pedro tem ódio e jorra vulcões de amargura só de pensar que há sotaque de Jesus nele, há modos de Jesus que foram absorvidos por ele, há reflexos de Jesus que foram captados por ele, sua mente possui certos sistemas de pensamento que são herança do pateta de nazaré!
Isso mincomoda profundamente a Pedro.
E basta que alguém afirme essas características, pra que Pedro se sinta ofendido, como uma mulher grávida de um estuprador.
E chega a praguejar de tanta revolta!
"Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia.
74 Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo.
75 Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente".
Só assim, a gente entende o que representou para Pedro e para Jesus aquela tal "traição".
Só assim entendemos e vergonha de Pedro que o fez pular na água quando de cima do barco viu Jesus ressurreto na areia!
Só assim entendemos a conversa quase em forma de código entre Jesus em Pedro, em algum momento após a ressurreição e após o susto de vergonha do amado-amante Pedrão:
"Veio Jesus, tomou o pão, e lhes deu, e, de igual modo, o peixe.
14 E já era esta a terceira vez que Jesus se manifestava aos discípulos, depois de ressuscitado dentre os mortos.
15 Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros.
16 Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas.
17 Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas".
Dá pra entender estas coisas, minha gente?
Sem acusações, sem confissões de decepção, sem amargura alguma, e nem mesmo aquela "alegria dos superiores"... Jesus apenas olha nos olhos de Pedro, após comerem pão e peixe, e apenas pergunta:
"Simão, filho de João, tu me amas?"
Uma, duas vezes...
E Pedro apenas responde: Sim, Senhor eu te amo.
E Jesus diz: Vem na minha, e apascenta o meus cordeiros.
Na terceira vez, Pedro já estava triste, pois ele não queria essa estranha coincidência. Afinal, foram três vezes que ele negou.
E nesta terceira vez, Pedro já se entregou, dizendo apenas:
- Senhor, tu sabes de todas as coisas. Aquelas coisas... Tu sabes que eu te amo.
E Jesus diss pela terceira vez: Então apascenta as minhas ovelhas.
E ainda disse:
"Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. Segue-me!".
Todo Simão só é Pedro nos olhos de Jesus.
E só o é verdadeiramente quando aprende de verdade, o caminho do seguir a Jesus verdadeiramente por onde ele for.
Antes de trair a Jesus, Pedro havia dito:
"Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte".
Mas Pedro não sabia que a morte das mortes é aquela que ele não estava disposto a morrer: a morte para a projeção de messias que havia dentro dele.
E isto a fim de que ele abraçasse o Verdadeiro. Aquele que é o Pastor da ovelhas, e as guia com sua voz, e vai na frente, a fim de mostrá-las o Caminho e fazê-las passar em segurança, confiança e cuidado perfeito.
O conhecimento do Caminho de Amar a Jesus, envolve descobrirmos quem Ele é verdadeiramente, a fim de não seguirmos uma fantasia nossa, mas seguirmos a Verdade.
Quem deseja seguir a Jesus e ser discípulo dele tem que morrer, sim. Mas pra si mesmo. Pra suas fantasias, diretrizes, alvos, determinações, julgamentos, esperanças, sonhos de poder e vitória em Cristo...
E nascer para Aquele que nos diz: "Psiu! Acalma! Me dá tua mão aqui... vem comigo. Deixa eu te conduzir... Quietinho... Você não quer e não entende agora, porém mais tarde tu entenderás... vem comigo... eu te amo ovlhinha minha... eu estou contigo... pode vir... vem seguro... não te deixarei jamais... tu não és órfão... confia em mim... haverá bom futuro... eu te amo Simão."
Parece lindo isto, mas... enquanto Jesus está dizendo estas palavras, nós estamos dizendo:
""Seu bananão! Seu falido! Seu louco! Tu queres morrer? Vamos tomar logo esse trono de jerusalém! Fostes tu mesmo que dissestes pra gente comprar espadas, seu maluco! Deu pra mim baixo astral! Vou pra porto alegre e tchau! Que perda de tempo! Três anos! Qual é a tua?! Vou arrumar um outro mestre com o mesmo nome teu e que fale as mesmas palavras, só que seja um vencedor de fato!!! Vou escrever a verdadeira história do cristianismo! Uma história de vitórias, conquistas e cruzadas! Se Deus é por nós, ninguém será contra nós! Somos cabeça e não cauda! A partir de hoje declaro meu manifesto Protestante contra ti! Seu, seu..."
A diferença dos Pedros e dos Judas é apenas esta.
Os dois traem da mesma forma.
Só que Judas é aquele que resolve morrer pra tudo aquilo que o incomoda e o aflige. E cria seus próprios sistemas e fugas. Ele não se deixa ser cozido na fornalha até o fim. Ele se mata antes do fogo o matar pra vida.
Pedro é aquele que fica vivo até morrer por morte morrida, e acaba por se converter quando vê Jesus vivo outra vez diante dele.
Judas representa os sistemas espirituais que se baseiam em Jesus mas totalmente mortos pra ele e pra vida. Pois não foram até o final do processo. Não forama té as últimas consequências.
Pedro representa aqueles que passam pela prova do começo até o final, e permitem que a perseverança tenha "ação completa". Eles não se matam antes. Eles ficam vivos pra serem olhados nos olhos e ouvirem: "Eu não disse que o Caminho da entrega e do Amor era mais excelente e melhor? Agora vai, e anuncia isto para os teus irmãos".
Aquele que descobre este verdadeiro caminho de discípulo, tem a honrada chance de guiar outras ovelhinhas, assim como ele é guiado pelo Pastor e Mestre Eterno.
Dificilmente se conhece a Jesus tão intensamente, sem passar pela fúria que nos leva à traí-lo.
Mas Ele já sabe que isto acontecerá, e nos previne por um motivo: Pra que quando acontecer, tenhamos bom ãnimo.
Pois depois dos dias de trevas, ele aparecerá de novo diante de nós, em glória.
E é onde verdadeiramente tudo começa pra valer!
Sim, falo da morte! A nossa morte, hoje!
Falando assim, parece até que estou apresentando uma simbologia sobre "conhecer a Jesus depois da morte, quando ele se apresentará como ele é, e nós o conhecermos glorificado!"
Sim, falo da morte!
A nossa morte, no dia que se chama hoje!
"O que tiver de fazer, faze-o depressa! Estou orando por ti, apenas pra que a tua fé não desfaleça. e quando tu te converteres, ajuda a confirmar os teus irmãos".
Essa é a diferença básica entre Pedro e Judas.
Pedro não desfaleceu no processo, quer dizer: não se suicidou. (literalmente falo)
E Pedro teve a chance de ainda em vida, ajudar a fortalecer os irmãos na esperança que ele descobriu a partir da morte que experimentou.
Não se está brincando quando se diz que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus. Mesmo que o que antes nós chamávamos de amor venha a morrer, a fim de que um novo e perfeito amor se manifeste, saindo de dentro da fornalha.
Em Cristo, em quem a traição é apenas mais uma serva do Bem.
Marcello


